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quarta-feira, 27 de abril de 2011

ARTE GREGA - INTRODUÇÃO


Discóbolo de Miron
   Os gregos foram os primeiros artistas realistas da história, ou seja, os primeiros a se preocupar em representar a natureza tal qual ela é. Para fazerem isso, foi fundamental o estudo das proporções, em cuja base se encontra a consagrada máxima segundo a qual o homem é a medida de todas as coisas. Podem-se distinguir quatro grandes períodos na evolução da arte grega: o geométrico (séculos IX e VIII a.C.), o arcaico (VII e VI a.C.), o clássico (V e IV a.C.) e o helenístico (do século III ao I a.C.).

Ânfora do Período Geométrico
   No chamado período geométrico, a arte se restringiu à decoração de variados utensílios e ânforas. Esses objetos eram pintados com motivos circulares e semicirculares, dispostos simetricamente. A técnica aplicada nesse trabalho foi herdada das culturas cretense e micênica. Passado muito tempo, a partir do século VII a.C., durante o denominado período arcaico, a arquitetura e a escultura experimentaram um notável desenvolvimento graças à influência dessas e outras culturas mediterrâneas.

Também pesaram o estudo e a medição do antigo megaron, sala central dos palácios de Micenas a partir da qual concretizaram os estilos arquitetônicos do que seria o tradicional templo grego. Entre os séculos V e IV a.C., a arte grega consolida suas formas definitivas. 
    Na escultura, somou-se ao naturalismo e à proporção das figuras o conceito de dinamismo refletido nas estátuas de atletas como o Discóbolo de Miron e o Doríforo de Policleto.

Na arquitetura, em contrapartida, o aperfeiçoamento da óptica (perspectiva) e a fusão equilibrada do estilo jônico e dórico trouxe como resultado o Partenon de Atenas, modelo clássico por excelência da arquitetura dessa época.No século III, durante o período helenístico, a cultura grega se difunde, principalmente graças às conquistas e expansão de Alexandre Magno, por toda a bacia do Mediterrâneo e Ásia Menor.


ARTE GREGA - ESCULTURA

As primeiras esculturas gregas (século IX a.C.) não passavam de pequenas figuras humanas feitas de materiais muito brandos e fáceis de manipular, como a argila, o marfim ou a cera. Essa condição só se alterou no período arcaico (séculos VII e VI a.C.), quando os gregos começaram a trabalhar a pedra. Os motivos mais comuns das primeiras obras eram simples estátuas de rapazes (kouros) e moças (korés). As figuras esculpidas apresentavam formas lisas e arredondadas e plasmavam na pedra uma beleza ideal.

Essas figuras humanas guardavam uma grande semelhança com as esculturas egípcias, as quais, obviamente, lhes haviam servido de modelo. Com o advento do classicismo (séculos V e IV a.C.), a estatuária grega foi assumindo um caráter próprio e acabou abandonando definitivamente os padrões orientais. Foi o consciencioso estudo das proporções que veio oferecer a possibilidade de se copiar fielmente a anatomia humana, e com isso os rostos obtiveram um ganho considerável em expressividade e realismo.

Mais tarde introduziu-se o conceito de contrapposto - posição na qual a escultura se apoiava totalmente numa perna, deixando a outra livre, e o princípio do dinamismo tomou forma nas representações de atletas em plena ação. Entre os grandes artistas do classicismo estão: Policleto, Miron, Praxíteles e Fídias. Contudo, não se pode tampouco deixar de mencionar Lisipo, que, nas suas tentativas de plasmar as verdadeiras feições do rosto, conseguiu acrescentar uma inovação a esta arte, criando os primeiros retratos.

Durante o período helênico (século III a.C.), verificou-se uma ênfase nas formas herdadas do classicismo, e elas foram se sofisticando. O resultado disso foi o surgimento de obras de inigualável monumentalidade e beleza, como O Colosso de Rodes, de trinta e dois metros de altura. É interessante esclarecer que, tanto por sua função religiosa quanto pela sua importância como elemento decorativo, a escultura estava estreitamente ligada à arquitetura. Isso se evidencia nas estátuas trabalhadas nas fachadas, colunas e interiores dos templos.

ARTE GREGA - ARQUITETURA




Não resta dúvida de que o templo foi um dos legados mais importantes da arte grega ao Ocidente. Suas origens devem ser procuradas no megaron micênico. Este aposento, de morfologia bastante simples, apesar de ser a acomodação principal do palácio do governante, nada mais era do que uma sala retangular, à qual se tinha acesso através de um pequeno pórtico (pronaos), e quatro colunas que sustentavam um teto parecido com o atual telhado de duas águas. No princípio, esse foi o esquema que marcou os cânones da edificação grega.

Foi a partir do aperfeiçoamento dessa forma básica que se configurou o templo grego tal como o conhecemos hoje.No princípio, os materiais utilizados eram o adobe - para as paredes - e a madeira - para as colunas. Mas, a partir do século VII a.C. (período arcaico), eles foram caindo em desuso, sendo substituídos pela pedra. Essa inovação permitiu que fosse acrescentada uma nova fileira de colunas na parte externa (peristilo) da edificação, fazendo com que o templo obtivesse um ganho no que toca à monumentalidade.

Surgiram então os primeiros estilos arquitetônicos: o dórico, ao sul, nas costas do Peloponeso, e o jônico, a leste. Os templos dóricos eram em geral baixos e maciços. As grossas colunas que lhes davam sustentação não dispunham de base, e o fuste tinha forma acanelada. O capitel, em geral muito simples, terminava numa moldura convexa chamada de eqüino. As colunas davam suporte a um entablamento (sistema de cornijas) formado por uma arquitrave (parte inferior) e um friso de tríglifos (decoração acanelada) entremeado de métopas.

A construção jônica, de dimensões maiores, se apoiava numa fileira dupla de colunas, um pouco mais estilizadas, e apresentava igualmente um fuste acanelado e uma base sólida. O capitel culminava em duas colunas graciosas, e os frisos eram decorados em altos-relevos. Mais adiante, no período clássico (séculos V e IV a.C.), a arquitetura grega atingiu seu ponto máximo. Aos dois estilos já conhecidos veio se somar um outro, o coríntio, que se caracterizava por um capitel típico cuja extremidade era decorada por folhas de acanto.

As formas foram se estilizando ainda mais e acrescentou-se uma terceira fileira de colunas. O Partenon de Atenas é a mais evidente ilustração desse brilhante período arquitetônico grego.Na época da hegemonia helenística (séculoIII a.C.), a construção, que conservou as formas básicas do período clássico, alcançou o ponto máximo de suntuosidade. As colunas de capitéis ricamente decorados sustentavam frisos trabalhados em relevo, exibindo uma elegância e um trabalho dificilmente superáveis.

ARTE GREGA - PINTURA


Para falar da pintura grega é necessário fazer referência à cerâmica, já que foi precisamente na decoração de ânforas, pratos e utensílios, cuja comercialização era um negócio muito produtivo na antiga Grécia, que a arte da pintura pôde se desenvolver. No começo, os desenhos eram simplesmente formas geométricas elementares - de onde se originou a denominação de geométrico conferida a esse primeiro período (séculos IX e VIII a.C.) - que mal se destacavam na superfície.



Com o passar do tempo, elas foram gradativamente se enriquecendo, até adquirir volume. Surgiram então os primeiros desenhos de plantas e animais guarnecidos por adornos chamados de meandros. Numa etapa próxima, já no período arcaico (séculos VII e VI a.C.), começou a ser incluída nos desenhos a figura humana, que apresentava um grafismo muito estilizado. E, com o aparecimento de novas tendências naturalistas, ela passou a ser cada vez mais utilizada nas representações mitológicas, o que veio a aumentar sua importância.

As cenas eram apresentadas em faixas horizontais paralelas que podiam ser visualizadas ao se girar a peça de cerâmica. Com a substituição do cinzel pelo pincel, os traçados se tornaram mais precisos e ricos em detalhes. As peças de cerâmica pintadas começam a experimentar uma perceptível decadência durante o classicismo (séculos IV e V a.C.). No entanto, passado um bom tempo, elas acabaram ressurgindo triunfantes no período helenístico (século III), totalmente renovadas, cheias de cor e ricamente decoradas.



Aquíles joga astragalos






terça-feira, 12 de abril de 2011

BIZANTINA - INTRODUÇÃO



  A arte bizantina teve seu centro de difusão em Bizâncio, mais exatamente na cidade de Constantinopla, e se desenvolveu a partir do século IV como produto da confluência das culturas da Ásia Menor e da Síria, com elementos alexandrinos. As bases do império eram três: a política, a economia e a religião. Não é de estranhar, portanto, que a arte tivesse um papel preponderante tanto como difusor didático da fé quanto como meio de representação da grandeza do imperador, que governava, segundo o dogma, em nome de Deus.

   Para manter a unidade entre os diversos povos que conviviam em Bizâncio, Constantino oficializou o cristianismo, tendo o cuidado de enfatizar nele aspectos como rituais e imagens dos demais grupos religiosos. Isso explica o fato de ícones de Jesus e Maria provirem da Síria, Iraque e Egito, assim como se deu com a música e os cânticos. Também foram construídos centros de culto, igrejas e batistérios, com a adoção da forma das basílicas, da sala de audiência do rei (basileus), junto com o mercado das cidades gregas.

   O apogeu cultural de Bizâncio teve lugar sob o reinado de Justiniano (526-565 d.C.). Pertence a essa época um dos edifícios mais representativos da arquitetura bizantina: a Igreja de Santa Sofia. Ao período iconoclasta, em que foram destruídas e proibidas as imagens (726-843 d.C.), seguiu-se uma época de esplendor e ressurgimento cultural na qual a arte bizantina foi para o Ocidente, difundindo-se pelos países ou cidades que comercial ou politicamente continuavam em contato com Bizâncio: Aquisgran, Veneza e países eslavos, entre outros.

BIZANTINA - ARQUITETURA


Catedral de Santa Sofia
   Uma vez estabelecido na Nova Roma (Constantinopla), Constantino (270-337 d.C.) começou a renovação arquitetônica da cidade, erigindo teatros, termas, palácios e sobretudo igrejas, já que se fazia necessário, uma vez oficializado o cristianismo, imprimir seu caráter público definitivo em edifícios abertos ao culto. As primeiras igrejas seguiram o modelo das salas da basílica (casa real) grega: uma galeria ou nártex, às vezes ladeada por torres, dava acesso à nave principal, separada por fileiras de colunas de uma ou duas naves laterais.
   No lado oeste, o transepto, ou nave principal, se comunicava com a abside. O teto era de alvenaria e madeira. Graficamente falando, as primeiras basílicas eram como um templo grego virado para dentro. A simbologia dessas igrejas não poderia ser mais precisa: o espaço central alongado era o caminho que o paroquiano percorria até a consubstanciação, simbolizada na abside. Esse modelo foi posteriormente substituído pelas plantas centralizadas circulares, como a dos panteões romanos e as plantas octogonais.

San Vitale - Ravenna
Chegaram até nossos dias as igrejas mais importantes do reinado de Justiniano (526-565): Santa Sofia, Santa Irene e São Sérgio e Baco. Foi nessa época que se iniciou a construção das igrejas de planta de cruz grega, cobertas por cúpulas em forma de pendentes, conseguindo-se assim fechar espaços quadrados com teto de base circular. Esse sistema, que parece já ter sido utilizado na Jordânia em séculos anteriores e inclusive na Roma antiga, se transformou no símbolo do poderio bizantino.



Planta em corte da Catedral de Santa Sofia


Interior da Catedral de Santa Sofia

   A arquitetura de Bizâncio se difundiu rapidamente pela Europa ocidental, mas adaptada à economia e possibilidades de cada cidade. Não se deve esquecer que Santa Sofia foi construída sem a preocupação com gastos, algo que os demais governantes nem sempre podiamse permitir. São Vital e Santo Apolinário Novo, em Ravena, a capela palaciana de Aquisgran, São Marcos, em Veneza, e o mosteiro de Rila, na Bulgária, são igrejas que melhor representaram e reinterpretaram o espírito da arquitetura bizantina.


Interior mausoleu Gala Placidia

BIZANTINA - ESCULTURA

A escultura bizantina não se separou do modelo naturalista da Grécia, e ainda que a Igreja não estivesse muito de acordo com a representação estatuária, não obstante, essa foi a disciplina artística em que melhor se desenvolveu o culto à imagem do imperador. Também tiveram grande importância os relevos, nos quais os soberanos imortalizaram a história de suas vitórias. Das poucas peças conservadas se deduz que, apesar de seu aspecto clássico, a representação ideal superou a real, dando-se preferência à postura frontal, mais solene.

Não menos importante foi a escultura em marfim. As peças mais correntes eram os chamados dípticos consulares, de uma qualidade e maestria incomparáveis, que, à guisa de comunicação, os funcionários enviavam aos demais altos dignitários para informar sua nomeação. Esse modelo mais tarde se adaptou ao culto religioso em forma de pequeno altar portátil. Quanto à ourivesaria, proliferaram os trabalhos em ouro e prata, com incrustações de pedras preciosas. Porém, poucos exemplares chegaram até nossos dias.

BIZANTINA - PINTURA


   A pintura bizantina é representada por três tipos de elementos estritamente diferenciados em sua função e forma: os ícones, as miniaturas e os afrescos. Todos tiveram um caráter eminentemente religioso, e embora predominassem as formas decorativas preciosistas, não faltou a essa disciplina o misticismo profundo comum a toda a arte bizantina. Os ícones eram quadros portáteis originados da pintura de cavalete da arte grega, cujos motivos se restringiam à Virgem Maria, sozinha ou com o Menino Jesus, ou ao Retrato de Jesus.
   As miniaturas eram pinturas usadas nas ilustrações ou nas iluminuras dos livros e, como os ícones, tiveram seu apogeu a partir do século IX. Sua temática era limitada pelo texto do livro, geralmente de conteúdo religioso ou científico. Os afrescos tiveram sua época de maior esplendor em Bizâncio, quando, a partir do século XV, por problemas de custo, suplantaram o mosaico. A pintura ganhou assim em expressividade e naturalismo, acentuando sua função narrativa, mas renunciando a parte de seu simbolismo.

  Sozinho ou combinado com a pintura e com mais preponderância do que ela, pelo menos entre os séculos VI e VII, a técnica figurativa mais utilizada foi o mosaico. Suas origens remontam à Grécia, mas foi em Bizâncio que se usou o mosaico pela primeira vez para decorar paredes e abóbadas e não apenas pisos. No início, os motivos eram extraídos da vida cotidiana da corte, mas depois adotou-se toda a iconografia cristã, e o mosaico se transformou no elemento decorativo exclusivo de locais de culto (igrejas, batistérios).
  Tanto na pintura quanto nos mosaicos seguiram-se os mesmos cânones do desenho: espaços ideais em fundos dourados, figuras estilizadas ornadas com coroas de pedras preciosas para representar Cristo, Maria, os santos e os mártires e paisagens mais inclinadas para o abstrato, em que uma árvore simbolizava um bosque, uma pedra, uma montanha, uma onda, um rio. A Igreja se transformava, assim, no modelo terreno do paraíso prometido. O homem era o cânon, a medida e a imagem de Deus.  

Esses princípios básicos de representação eram estabelecidos formalmente: primeiro se procurava fazer o contorno da figura, depois as formas do corpo, as roupas e os acessórios e, finalmente, o rosto. A variedade representativa mais interessante se deu em torno da figura de Maria. Havia tipos de simbologia definidos. Por exemplo, com a mão direita no peito e o Menino Jesus na esquerda, era a Hodigitria (a condutora); acompanhada do monograma de Cristo era a Nikopeia (a vitoriosa) e amamentando o Menino Jesus, a Galaktotrophusa (a nutriz).

quinta-feira, 7 de abril de 2011

MITOLOGIA GRECO – ROMANA / HÉRACLES - HÉRCULES



   Héracles talvez seja o herói da mitologia clássica mais conhecido universalmente, e um daqueles que, desde a Antiguidade, tiveram mais fortuna entre os artista. Chamado Hércules pelos romanos, sua vida e as lendas que a compõem não são um mito em sentido estrito, mas, como diria Pierre Grimal, um ciclo heróico. O mito pressupõe uma visão do universo, da vida, e tem uma dimensão religiosa que a figura de Héracles não oferece. Já um ciclo heróico é caracterizado por histórias "cuja única unidade é fornecida pela identidade do personagem que é seu herói principal". As mais célebres de suas incontáveis aventuras são aquelas que, ao longo do tempo e por obra dos mitógrafos gregos desde a época pré-helenística até o fim da Antiguidade, ganharam o título de "Os doze trabalhos de Héracles".
   Segundo Homero, Héracles era filho de Zeus e de Alcmene, esposa de Anfitrião. Aproveitando-se da ausência deste último, o deus assumiu a aparência dele e dormiu com a mulher. Assim nasceu o semideus, dotado de uma força incomparável e de um caráter colérico. Assim como em relação a todas as amantes de Zeus e aos respectivos filhos, Hera (Juno) alimentará rancor também contra Héracles, que deverá sofrer suas perseguições. Num momento de loucura suscitado pela deusa, Héracles mata os três filhos do rei de Tebas. O oráculo de Delfos estabelece que o herói, para expiar sua culpa, deve colocar-se a serviço de Euristeu, rei de Tirinto, que lhe impõe os famosos doze trabalhos. Assim, Héracles deve enfrentar o Leão de Neméia, animal de dimensões e ferocidade extraordinárias, livrar os arredores de Lerna da terrível Hidra, serpente de nove cabeças, ou capturar Cérbero, o cão de cem cabeças, guardião do Hades, o reino dos mortos.
   Os trabalhos de Héracles, assim como outras lendas ligadas ao herói, são figurados já desde o século VII a.C., quando surge na cerâmica grega a técnica da decoração em figuras negras. Nesse e em todo o século seguinte, e ainda depois, as divindades e os heróis são representados em figuras negras e contornos entalhados contra o fundo alaranjado da argila, em composições quase seguramente inspiradas em obras pictóricas (madeira e afrescos) que se perderam, mas cuja existência é atestada pelas fontes literárias.
   Entre os muitos exemplos, destacam-se uma ânfora ática do século VI a.C. com a Disputa pela Corça de Cerinia entre Héracles, Apolo e Ártemis, sob olhar de AtenaI (Museu do Vaticano) e duas ânforas do início do século V a.C. (Paris, Museu do Louvre) que mostram Hércules golpeando a Hidra de Lerna com um machado e Hércules luta contra as aves Estinfálidas. Nestes dois exemplos, são bem visíveis os atributos tradicionais do herói: a pele de leão (a do leão de Neméia) e a clava. Ás vezes, semideus também é representado com uma espada, presente de Hermes (Mercúrio), ou com arco e flechas, dados pelo deus Apolo.
   Na segunda metado do século VI a.C., aparecem também os primeiros vasos de figuras vermelhas, que têm contornos negros no interior e se recortam sobre fundo negro. Com essa técnica, durante cerca de um século os ceramistas não só realizam o escorço das figuras, mas também mostram a profundidade espacial e a expressão psicológica dos personagens. Entre os exemplos mais importantes desse estilo aplicado á figura de Héracles, citemos a cratera em cálice (vaso de grandes dimensões, no qual se misturavam o vinho e a água servidos nos banquetes) de c. 510 a.C., do ceramista Eufrônio, com a representação da luta entre Héracles e Anteu, e o canjirão com a cena de O jovem Hércules estrangulando as serpentes, de c. 480 a.C. (Paris, Museu do Louvre).
   Também são muitas as representações de Héracles na estatuária antiga. Entre os exemplos mais interessantes, há dois: o Hércules Lansdowne (Malibu, P. Getty Foundation) e o Hércules de Farnese, proveniente das Termas de Caracala (Museu Arqueológico Nacional, Nápoles), ambos do século IV a.C., e nos quais o herói exibe a clava e a pele de leão, símbolos de sua força e dos seus trabalhos. Não faltam os exemplos de mosaicos grecos-romanos ou de arte etrusca que têm como tema as gestas dele.
   As figuras de Héracles se mantêm como um tema preferido pelos artistas e pelos respectivos clientes até os primeiros séculos da era cristã, para depois desaparecer do horizonte artístico, junto com os outros temas da mitológica, no decorrer dos séculos seguintes. Uma de suas representações tardias na arte antiga é a da pintura parietal do século I d.C. proveniente de Herculano, com Hércules estrangulando as serpentes, hoje guardada no Museu Arqueológico Nacional, Nápoles.
   Como outros heróis e deuses da mitologia clássica, Héracles reaparecerá na arte durante o século XV, em Florença (Renascimento). O escultor e pintor Antonio Del Pollaiolo foi um dos primeiros, na era moderna, a utilizar temas exclusivamente mitológicos. Por volta de 1460 ele pintou, a pedido de Lourenço o Magnífico, três grandes telas sobre os trabalhos de Hércules, as quais infelizmente se perderam. Duas madeirinhas de Pollaiolo com Hércules e Hidra e Hércules e Anteu (Florença, Galleria degli Uffizi) são consideradas evocações dessas obras. Nelas, já não vemos o linearismo e a bicromia das representações dos vasos antigos, mas uma restituição clássica, decididamente anatômica, das figuras, além de um chamamento ás poderosas figuras masculinas da estatuária antiga, que estava sendo redescoberta justamente no decorrer do século XV. As cenas são impregnadas de energia, graças às nervosas linhas de contorno que compõem a figura de Héracles e as dos seus adversários. Em Hércules e a Hidra, a pele de leão se infla com o enérgico salto do herói para a frente e a ponta do manto descreve uma curva, assim como os longos pescoços da Hidra e sua cauda que se enrola a uma perna de Héracles. Além disso, as cenas não se recortam mais sobre um fundo monocromático, abstrato, mas sobre uma paisagem a perder de vista, conquista da pintura flamenga e dos estudos sobre a perspectiva.
   Já então visto como a encarnação do bem que triunfa sobre o mal, segundo a interpretação neoplatônica da lenda, Héracles torna-se mais uma vez um assunto popular, destinado a perdurar. O mesmo Pollaiolo representa Hércules e Anteu num pequeno bronze de c. 1475 (Florença, Museu Del Bargello). Vincenzo de'Rossi, escultor florentino do século XVI, dá sua versão do tem num grupo escultórico que hoje se encontra no Palazzo Vecchio, em Florença; em 1599, Giambologna realiza, sempre por encomenda florentina, o grupo marmóreo com Hércules e o centauro Nessus. 

Hércules estrangulando o leão de Neméia, Peter Paul Rubens, 1638-1639
   Alguns anos mais tarde, Rubens pinta Héracles estrangulando o leão de Neméia (Bucareste, Museu Nacional de Arte Romena) e Héracles no jardim das Hespérides (Turim, Galleria Sabauda); o pintor espanhol Francisco de Zurbarán fornece, em Hércules e Cérbero (Madri, Museu do Prado), uma versão tenebrosa do episódio no qual o herói enfrenta o cão guardião do reino dos mortos. Mais tarde, nos primeiros anos do século XIX, o escultor Antonio Canova explora o tema da cólera de Héracles executando um grupo escultórico de grande dramaticidade, no qual mostra o herói arremessando no ar seu amigo Licas (Possagno, Gipsoteca Canoviana). Uma versão entre o fantástico e o fantasmagórico de um episódio da vida do herói nos é dada por Héracles e a Hidra de Lerna, de Gustave Moreau. Seria errôneo, contudo, atribuir a popularidade do herói entre os artistas exclusivamente ao aspecto simbólico do bem que triunfa sobre o mal. Talvez, mais do que qualquer outra coisa, os artistas sejam atraídos pelo caráter dramático e exasperado de suas aventuras.

Héracles e a Hidra de Lerna, de Gustave Moreau - 1876

quarta-feira, 6 de abril de 2011

ARTE EGÍPCIA - INTRODUÇÃO


Em todos os tempos, a civilização egípcia foi, sem dúvida, uma das culturas orientais mais admiradas e estudadas pelas nações ocidentais. As investigações sobre essa antiga e misteriosa civilização atingiram o auge na Idade Média e no renascimento, mas foi somente no período neoclássico que avançaram decisivamente. Com base na pedra Rosetta, encontrada por um soldado de Napoleão, o cientista francês Jean-François Champollion decodificou em 1799 uma série muito importante de hieróglifos, levando em conta as traduções em grego e em escrita demótica feitas na pedra.

A partir de então constituiu-se a ciência da egiptologia. Sua aplicação imediata serviu para a tradução e interpretação dos textos pintados e gravados em muros e esculturas de templos funerários. Esses textos, por sua vez, revelavam a sua função: repouso de reis e nobres e de seus incalculáveis tesouros, após sua morte. Muito pouco, no entanto, resistiu até os nossos dias. Os magníficos tesouros dos faraós foram, em sua época, alvo de assaltantes e ladrões, que ignoraram seu caráter intocável e sagrado.

As obras conservadas mais significativas pertencem ao chamado império novo. A imponência e beleza dos templos de Luxor e Carnac e o delicado trabalho de ourivesaria também em objetos de uso diário refletem o apogeu de uma cultura que perseguiu, na beleza indescritível das manifestações artísticas, uma sincera oferenda a suas inúmeras divindades, cada qual para uma situação. Essas entidades costumavam ser representadas por esculturas com corpo de homem e cabeça de animal, vestidas com os mesmos trajes usados pelo faraó, um deus na terra.